A escolha de Guimarães, Capital Verde Europeia 2026, trouxe uma dimensão particular a esta edição do SENAG. Uma cidade profundamente ligada à história e à identidade do país, mas que demonstra que a valorização do seu património pode coexistir com uma ambição de futuro assente na sustentabilidade, na inovação e na qualidade de vida. Esta capacidade de conjugar experiência e renovação é também um desafio para o setor da água, que deve saber reconhecer o caminho percorrido e o conhecimento construído, sem deixar de encontrar novas respostas para as exigências que hoje se colocam.
Ao longo dos dois dias, ficou clara a necessidade de repensar o papel das águas residuais na gestão dos recursos hídricos. Mais do que assegurar a recolha e o tratamento, os sistemas de saneamento podem contribuir para a recuperação de água, energia e matérias-primas. A reutilização de água e a valorização de lamas e outros subprodutos são exemplos de oportunidades que importa desenvolver, aproximando o setor dos princípios da economia circular.
Esta mudança de perspetiva exige, contudo, respostas a problemas concretos. As alterações climáticas, em particular a ocorrência de fenómenos de precipitação extrema e períodos de seca, colocam novos desafios aos sistemas de drenagem urbana e saneamento. A capacidade de antecipar riscos, adaptar infraestruturas e melhorar o planeamento territorial será determinante para reduzir a vulnerabilidade dos serviços.
A tecnologia abre igualmente novas possibilidades. A digitalização e a inteligência artificial podem melhorar a monitorização, otimizar os processos de tratamento e apoiar a gestão dos ativos. A sua aplicação deve, porém, ser acompanhada por investimento e formação, garantindo que estas ferramentas respondem às necessidades reais das entidades gestoras.
A concretização destas mudanças depende também da capacidade financeira do setor. A renovação das infraestruturas, a adaptação às exigências ambientais e a implementação de novas soluções implicam recursos significativos. Importa, por isso, encontrar modelos de financiamento que permitam às entidades gestoras responder às suas responsabilidades sem comprometer a qualidade e a acessibilidade dos serviços.
Outro desafio prende-se com a valorização dos recursos humanos. A saída de profissionais experientes e a dificuldade em atrair e reter quadros qualificados colocam em risco a transmissão de conhecimento e a capacidade de inovação das organizações.
Valorizar as carreiras e criar condições para a entrada de novas gerações é, por isso, uma questão estratégica. O conhecimento acumulado não deve perder-se com a saída de quem o construiu, deve ser transmitido, enriquecido e colocado ao serviço de quem dará continuidade a este trabalho.
Na sua intervenção, o Secretário de Estado do Ambiente, João Manuel Esteves, sublinhou a importância de antecipar, planear e investir. Uma orientação que exige articulação entre Governo, entidades reguladoras, municípios e entidades gestoras, bem como um enquadramento legislativo capaz de acompanhar a evolução das necessidades e das soluções disponíveis.
O SENAG ficou também marcado pela cerimónia de atribuição dos Selos da Qualidade Exemplar da Água, promovida pela ERSAR, que distinguiu 57 entidades gestoras, reconhecendo o trabalho desenvolvido na prestação de serviços de qualidade.
A segunda edição do SENAG permitiu identificar prioridades e refletir sobre as oportunidades que se abrem ao setor. Reimaginar a água urbana significa reconhecer o potencial das águas residuais, preparar os sistemas para os efeitos das alterações climáticas e criar condições para uma gestão mais eficiente dos recursos.
Nenhuma destas transformações se concretiza isoladamente. Exige confiança, responsabilidade partilhada e a disponibilidade para aprender com a experiência dos outros. Exige também que cada interveniente compreenda o seu papel numa construção que ultrapassa interesses individuais e responsabilidades institucionais. É na convergência de vontades, na partilha de conhecimento e na continuidade do trabalho que se constrói um setor mais resiliente.
A APDA continuará a promover este espírito de cooperação, acreditando que o futuro do setor da água se constrói em conjunto, com conhecimento, compromisso e sentido de responsabilidade.
José Martins Soares
Presidente do Conselho Diretivo da APDA